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Museu Damião de Góis, um homem muito à frente

Museu Damião de Góis
Par João GALVÃO Il y a 7 Mois
Catégories :
Cultura

Há agora em Alenquer um museu dedicado a Damião de Góis, nome maior do Humanismo europeu, na capela onde foi batizado em 1502

 

"In Die Tribulationis", por Damião de Góis, apresentada em 1549, em Veneza

 

Damião de Góis, nascido aqui em Alenquer, foi historiador e grande humanista nos primórdios desta corrente tão moderna e vanguardista à época. Tão assumida e apaixonadamente, que se viu, apesar do mérito e do favor Real, perseguido e condenado pela Santa Inquisição, num dos mais complexos processos do medonho e tenebroso tribunal.

 

Ao Humanismo de Damião de Góis, que certamente desenvolveu e alicerçou quando travou de perto com Erasmus e Lutero em viagens oficiais a mando da coroa, deve-se o sobrenome do Museu,” e das Vítimas da Inquisição”. A distinção de credos não era, de todo, simpática à causa Humanista, e por tal Damião pagou bem caro. Alenquer tem forte cunho judaico, tem mesmo uma antiga judiaria, terreno de caça favorito da Inquisição. E a um homem evoluído e vanguardista como Damião esta situação seria, no mínimo, errada e reprovável.

Durante décadas Damião de Góis vivera fora do país, numa Europa mais esclarecida, como em Itália, ou mais vanguardista, como no norte do continente. E foi nesta Europa esclarecida e Humanista que o historiador encontrou a sua esposa Joana van Hargen, filha de um conselheiro flamengo da corte de Carlos V. Encontrou a esposa e privou como dissemos com Lutero, Erasmus e o pintor Dürer, entre outros ilustres contemporâneos. Como sabemos, não há como a convivência com o ‘outro’ para nos fazer evoluir (não é essa, afinal, a razão última dos programas Erasmus dos nossos dias?)

 

A génese do Museu Damião de Góis e das Vítimas da Inquisição não podia ser mais apropriada para estes tempos que vivemos, em que cada noticiário que vemos nos conta como quão facilmente a civilização pode retroceder séculos, em poucos minutos, e como a informação desregrada e as fake news têm cada vez mais peso (e cada vez mais perigoso) no nosso quotidiano. Este Museu serve não só para honrar a memória de um pensador português, serve talvez mais ainda para nos lembrar que há mais de 500 anos Damião de Góis, sem jornais e sem internet  (ou talvez por isso mesmo), era tão mais moderno e esclarecido que a maior parte de nós.

O sítio do agora Museu era antes a Igreja da Nossa Senhora da Várzea, onde o eminente português foi batizado e onde pediu, e pagou, para ser sepultado com a esposa. E lá esteve até ao abandono da bela igreja que a tornou ruina. A meio do século passado um punhado de homens bons trataram da trasladação do túmulo do  casal, e do respetivo aparato rodeante, para a próxima igreja de São Pedro. O lugar dos antigos túmulos é agora honradamente ocupado por originais do Humanista, como um exemplar da Crónica de D. Manuel de 1749.

 

A criação deste museu foi possível graças à sua inserção na Rede de Judiarias de Portugal e à ajuda financeira do mecanismo Iceland Liechtenstein Norway Grants. Custou cerca de meio milhão de euros e é tão bem desenhado que se encontra já candidato a um prémio internacional de Espaços Museológicos.

Quero crer que o vai ganhar: vendo as fotos da ruína que foi e o resultado que agora é, outra coisa não se esperaria. A intervenção contemporânea é um complemento mínimo e residual ao aparelho de alvenaria exposta e belissimamente apresentada, num contraste fino e elegante com a abóboda de estuque branco e luminoso, de volta inteira a acompanhar a arcada original.

 

A música que abre este artigo é prova do homem renascentista que era Damião de Góis; é verdade, o homem era mesmo único, e entre todos os outros predicados foi também um compositor brilhante. Eu não sabia, e esta já está no iPod.

 

 

Fotos cedidas pelo Museu