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Entrevista a Fernanda Barbosa, CEO da Ferreira de Sá

Ferreira de Sá
By Inês ALMEIDA . 3 years
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Entrevistas

Fernanda Barbosa da Ferreira de Sá fala sobre a Frank Gehry Collection

 

Saiba mais sobre a presidente da Ferreira de Sá, a empresa de tapeçarias responsável pela produção da Frank Gehry Collection, em exposição no Radio Palace até dia 6 de Maio.

 

Fernanda Barbosa e Frank Gehry

O arquiteto Frank Gehry com Fernanda Barbosa, presidente da Ferreira de Sá

 

  1. Como surgiu a parceria com o Frank Gehry?

 

O arquiteto Álvaro Siza é nosso cliente desde sempre, desde a 2.ª geração da empresa. Tudo o que o nosso mestre Siza faz é com a Ferreira de Sá. É uma amizade muito grande mesmo. Tudo começou com o meu pai, médico anestesista, que casou com a filha de um empresário de tapetes. Antes de ir para medicina andou um ano e tal na faculdade de arquitetura.  Foi durante esse ano que conheceu o Álvaro Siza e que surgiu uma grande amizade entre eles. Depois conheceu a minha mãe e casou-se. A partir daí sempre trabalhámos com o arquiteto.

 

Um dia o Siza estava em Nova Iorque e o Frank Gehry diz-lhe “então tu fazes tapetes?”. Foi aí que soube da nossa existência, ficou interessado e entrou em contacto connosco. Esta parceria proporcionou-se passados poucos meses. Ele não pôde vir à fábrica, por isso fomos nós ao escritório dele. Depois desenvolvemos uma coleção. Durante o processo ele foi muito minucioso com as cores e os pormenores. Além da coleção, que está agora exposta no Radio Palace, também desenvolvemos outras carpetes para o Frank Gehry a título pessoal.

 

Um dos tapetes da Frank Gehry Collection em exposição no Radio Palace

 

 

  1. Tiveram outras coleções à semelhança da Frank Gehry Collection?

 

Sim. Entre as minhas preferidas contam-se, além da Frank Gehry Collection, as coleções que tivemos em parceria com o Daciano da Costa, Nadir Afonso, Ana Aragão, Fátima Lopes e o Álvaro Siza. A Frank Gehry Collection é a concretização de um sonho. Ele costuma dizer ao Siza “quando tu desenhaste já conhecias a Ferreira de Sá e eu não, eu apresentei a minha proposta sem saber como era a técnica”.

 

O arquiteto Álvaro Siza vai muito à nossa fábrica, já conhece a nossa empresa. Ele sabe tudo sobre o processo de produção. Sabe quase tanto de tecelagem ou da Ferreira de Sá como eu. O Frank Gehry tinha receio que este projeto corresse mal. Ele tinha o sonho de fazer carpetes e foi a primeira vez que trabalhou em têxtil. É uma honra. Principalmente por ele ter acreditado que a Ferreira de Sá conseguisse. Mas foi difícil, foi um desafio.

 

Álvaro Siza

Tapete desenhado por Álvaro Siza para a Ferreira de Sá

 

Chegámos a fazer uma azul, a primeira, que ele não gostou. Depois percebemos o que ele queria, mudámos, e tudo o resto foi feito em função disso. A minha preferida é a laranja, mas toda a gente gosta mais da rosa. A mais difícil de fazer foi a verde. Nós temos duas técnicas, a injecção (hand tufting) e o nó manual (hand knot) e a verde foi feita nesta última técnica, nó manual. Com esta técnica demorou seis meses a ser produzida. Para executar o nó manual faz-se um esquema em ponto cruz e as senhoras no tear têm umas boxes com cores, quase iguais, das quais vão buscar o fio e depois dão o nó no sítio certo. Constroem a carpete nó a nó. A técnica hand tufting também é difícil, mas é menos morosa, porque conseguimos pôr os colaboradores a trabalhar por turnos.

Nó manual

A tapeçaria verde da Frank Gehry Collection a ser fabricada em nó manual

 

 

  1. Como tem evoluído a Ferreira de Sá enquanto negócio de família ao longo dos anos?

 

A minha geração representa a 3.ª geração da empresa, mas existe uma 2.ª geração ainda viva. Nesta 3.ª geração não há primos, porque a minha tia tem por sua vez outro negócio familiar bem-sucedido.O que nós mudámos em relação à 2.ª geração foi a técnica hand-tufting que depois evoluiu, tornando a secção mais robotizada e com tempos de entrega melhores.

 

Neste momento temos um workflow total da produção, sendo que somos a única empresa em Portugal que o pode afirmar. Isto significa que temos controlo da produção do início ao fim. Todos os nossos 150 colaboradores têm um controlo das suas funções de forma a se responsabilizarem por cada peça que sai. Ou seja, nós conseguimos saber ao minuto quem transformou a peça e quanto tempo levou assim como o seu custeio.Todas as carpetes que saem da nossa fábrica têm um ID, um bilhete de identidade de artesãos que contribuíram para a sua confeção.

 

Ferreira de Sá

 

  1. Como é o percurso inicial dos artesãos, por onde começam?

 

Neste momento temos artesãos jovens a aprender com os antigos. A sua formação é o curso profissional de têxtil, que lhes dá equivalência ao 12.º ano. Estes já não vêm para uma empresa artesanal, mas sim para uma empresa que faz produtos artesanais com tecnologia associada.

 

 

  1. Em que medida é que os clientes podem personalizar os seus tapetes?

 

Todos os nossos produtos são bespoke, ou seja customizados à medida do cliente. Temos de ter um controlo de qualidade rigoroso para o produto não sair com a cor ou com a medida errada.

 

 

  1. A Ferreira de Sá reúne apreciadores dentro e fora de fronteiras. Onde é que se podem ver os tapetes da marca?

 

Na série Vidago Palace, que estreou agora mesmo, todas as carpetes que aparecem são Ferreira de Sá. Também estamos em todas as lojas da Dior e estamos associados a muitas marcas internacionais. A Ferreira de Sá marca presença em várias cadeias de hotéis, como os Hoteis Altis , Swisshotel, Hilton ,Marriot  e o Sheraton. Também temos vários clientes, entre designers, arquitectos, membros do Estado. Ainda na semana passada saíram duas carpetes para o Cristiano Ronaldo (Designer Paula Brito), contemporâneas, todas recortadas. Há 15 dias esteve cá um designer do Qatar, onde temos tapetes em muitos hotéis, como no Sheraton de Omã. Os do Sheraton, em Lisboa, também são todos nossos.

 

 

  1. Já vos aconteceu alguém vos dar um desenho pouco ortodoxo para passarem para o tapetes?

 

Já. Tivemos um alemão que nos mandou uns nudes e pensámos “agora vamos ter de fazer isto na produção” e entretanto tivemos de avisar as pessoas que iam carpetes pornográficas para a produção. Carpetes pornográficas à Adão e Eva [risos]. São carpetes que ninguém imagina. Faz-se tudo, faz-se o e feio faz-se o bonito.

 

Ferreira de Sá

Um dos desenhos mais invulgares que já pediram à Ferreira de Sá para reproduzir

 

Também já fizemos carpetes maravilhosas para o Mestre Álvaro Siza, Daciano da Costa, Nadir Afonso e Ana Aragão, entre outros artistas plásticos fantásticos além do Frank Gehry. Para esta coleção, o Frank Gehry fez uns desenhos em aguarela. Temos os originais na empresa. Foi a partir daí quese passou da da aguarela para o fio. Temos de tingir cores em função da cor da aguarela. Nós dizemos ao arquiteto [Frank Gehry] na brincadeira que “somos mais importantes que o seu nome, o mestre” na confeção desta coleção. Isto requer um know-how de 70 anos que a empresa tem.

 

  1. Quem compra estes tapetes Frank Gehry não é para pôr no chão, certo?

 

Já vendi uma carpete que foi para o chão. Uma verde desta coleção, para o próprio Frank Gehry. Mas é claro que é uma pena pôr estas carpetes no chão. Isto é história.

 

Fazemos tapeçarias maravilhosas para o chão assim como para a parede.

 

 

Saiba mais sobre o empreendimento Radio Palace