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Obra de Sofia Arez em exposição no Radio Palace

Sofia Arez
Par Inês ALMEIDA Il y a 4 ans
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Entrevistas

“Abandono” vai estar no Radio Palace até 30 de Maio

 

Em que se inspirou para conceber a obra “Abandono”?

 

A inspiração começou já há algum tempo atrás. Eu estive a fazer um trabalho de pesquisa em Alcobaça sobre a arte cisterciense, em que São Bernardo de Cadaval, que era o mentor dos monges cistercienses, dizia que se aprendia mais debaixo de uma árvore do que nos livros. Nos claustros cistercienses nunca havia imagens como noutras ordens, por exemplo imagens de nossa senhora ou dos crentes. Para eles era só contemplação, especialmente da natureza, e foi isso que me chamou à atenção. Que uma pessoa poderia fazer esta contemplação como um acto de meditação. Era uma maneira de eles viverem, esse estado de espírito, a contemplação debaixo de uma árvore. Tudo começa com esse mote.

 

Então, aqui temos a luz ao anoitecer. Nas três obras vêem-se diferentes tons de azul. São inspiradas na parte de baixo das árvores. Quase que diria que o detalhe mais importante é o recorte entre a árvore e o céu, em que se vê do outro lado. Dia após dia ia pondo camadas sucessivas de verdes, para haver quase uma performance, ou seja, uma atuação em que os verdes e os azuis se vão construindo. E assim consegue ter várias leituras de vários dias e vários momentos. Como se pudéssemos viver debaixo de uma árvore, tentar captar isso. Essa sensação de verde e azul. Não é assim tão híper realista. Há pessoas que até dizem que parece um mapa. Um mapa visto do céu. É quase essa sensação de infinito, transmite calma, a meditação que os monges procuravam.

 

Isto foi mesmo pintado no jardim. Foi durante uma residência artística que eu fiz num jardim, quando estive em Macau. Trouxe agora os quadros.

 

 

Abandono 1

Abandonment #5,Sofia Arez,102.5 x 76.5 cm,Oil on carvas,2013

 

 

Fale-nos mais do seu percurso. É artista a tempo inteiro?

 

Sim, mas também faço pesquisa de arte e também ensino. Portanto, conjugo com a educação e a pesquisa. Dou aulas à tarde numa escola. Tento complementar umas horas de pintura, umas horas de pesquisa e umas horas de ensino. Sinto-me mais completa com o processo todo.

 

Não fica só para mim, também transmito o ato de pintar. Ensino a ver. Levo os miúdos para a quinta, debaixo das árvores. De pequeninos, começam no princípio do ano. No início do ano fazem um exercício diagnóstico, por exemplo, desenham uma abóbora, e ao fim de seis meses estão a repetir a mesma obra. E vê-se a evolução, eles aprendem mesmo a olhar e a reproduzir o que estão a ver.

 

 

Não é só aprender a criar, não é? Primeiro tem de se aprender a ver?

 

Sim, tudo começa aí. Eu achei que já estava numa fase de maturidade em que podia ensinar, então nos últimos anos tenho feito isso. Dei aulas em Macau, Portugal… Em Macau passava duas horas por dia a ensinar.

 

 

E que outros projetos é que tem?

 

Faço pintura e faço vídeo. Há um vídeo que complementa este trabalho. Mas como temos vários artistas aqui, optou-se por se dar a ver um trabalho não tão completo, mas um apontamento de cada artista. Penso que essa foi a opção do curador. Outro projeto que se alia a este é um vídeo em que estou debaixo de uma oliveira a fotografar os vários tempos, em time lapse, e vê-se a luz a passar. Vê-se desde o anoitecer ao amanhecer, com várias luzes do dia, e aprecia-se a forma como estas se reflectem nas folhagens.

 

 

Abandono 2

Abandonment #6,Sofia Arez,122 x 91.2 cm,Oil on carvas,2013

 

 

Tem outros projetos além deste?

Eles vão lado a lado, não é um trabalho que se pare. Esta contemplação da natureza vai crescendo. Neste momento também estou a pesquisar sobre a água, sobre os reflexos de azul. O azul-escuro, o acinzentado, que nos dá aquela sensação de profundidade. A profundidade que nós quisermos dar. Estas profundidades que dão espaço para que se possa ver o que está do outro lado.

 

 

Sofia Arez

 

 

Quem é a Sofia Arez?

 

Sofia Arez nasceu em Lisboa em 1972 e vive entre Lisboa e Macau desde 2012. Num percurso singular, marcado por um currículo artístico significativo que inclui obras de pintura, escultura, desenho, fotografia e vídeo, mostra figurações que exploram emoções interiorizadas e, mais recentemente, paisagens difusas. Aparentemente diverso, depressa se reconhece, porém, a profunda coerência do seu trabalho, que cruza o sentido da ascese com o despojamento da abstração motivada pelo sublime.

 

Formação

2010-2012 Mestre em Pintura com a com a dissertação da Ascese na  “D Arte: A Estética de S. Bernardo e a Poética de Newman”, Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa
1990-1993 Cursos de Pintura, Desenho e Escultura, AR.CO, Lisboa

 

Exposições Individuais

2014 Abandono, Fundação Oriente, Macau
2013 Abandono, Mosteiro de Santa Maria, Alcobaça
2011 In-Finito, Sala do Veado, Lisboa
2008 Sofia Arez, Galeria Fábulas, Lisboa
2003 Lugar do Observador, Centro Nacional de Cultura, Lisboa
1998 Lugar do Ser, Palácio da Independência, Lisboa
1996 Ritos de Passagem, Casa do Corpo Santo, Setúbal

 

Prémios

2003 Seleção Final, Prémio CELPA/Vieira da Silva, Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva
Menção Honrosa, 2º Grande Prémio BANIF de Pintura, Centro Nacional de Cultura

 

Contatos

[email protected]
http://www.sofiaarez.com